Bodas de Prata
20/10/2009 10:46
Bodas de Prata: acontecimento marcante na vida de um casal. Um quarto de século de vida em comum, originária da livre escolha da vida de duas criaturas, que em nome do mais nobre sentimento, se projetam em busca do horizonte da felicidade, segundo sua concepção. Momento de fazer um regresso na escalada do tempo e de reviver históricas emoções: o trabalho, o crescimento conjugal, com o nascimento dos filhos, sua evolução física e mental. As conquistasas frustrações, a renúncia, o sacrifício. Enfim, tudo aquilo que se identifica com o drama humano e transforma a família na mais sagrada de todas as instituições.Aproximava-se o dia quatro de fevereiro de 1972, data que o casal Adorindo e Cleusa festejaria suas Bodas de Prata. Não havia muito clima para comemorar o jubileu que o tempo se encarregou de acolher e conduzir. As intempéries se encarregaram de frustrar as últimas colheitas, por isso o casal andava sem dinheiro para organizar uma grande festa, digna de registro para ficar na memória de quem viveu 25 anos sob os princípios do amor, da fidelidade e da compreensão. Porem, a uva que estava amadurecendo prometia muito e eles a recebiam como uma dádiva que haveria de reacender sua esperança.
Além de todos os fatos que marcaram a vida jubilar de Adorindo e Cleusa, havia um pessoal e muito íntimo: durante todo esse tempo nunca se presentearam nem por ocasião de seus aniversários natalícios, nem no aniversário de casamento. Não que isso representasse uma expressão de descaso ou de indiferença entre os cônjuges, mas estavam tão absortos em trabalhar e em ganhar dinheiro, que as datas importantes de suas existências passavam desapercebidas. Às vezes só lembravam do aniversário na semana seguinte.
Parece que as Bodas de Prata fizeram renascer a manifestação sentimental do casal que o tempo havia hibernado. Por uma dessas coincidências que não se explicam mas acontecem, naquele dia 4 de fevereiro, Adorindo pensou em presentear a esposa e Cleusa resolveu presentear o marido, sem que entre eles houvesse qualquer confidência nesse sentido. Foram muitas horas de meditação de ambas as partes sobre o presente a ser oferecido. Adorindo era o dono de um cavalo de raça, capaz de fazer inveja a qualquer criador. Foi na exuberância e na nudez deste animal que Cleusa foi buscar a ideia inspiradora para presentear o marido: ela compraria uma vestimenta nova, do freio até o rabicho para ornamentar o cavalo. Ela tinha certeza que quando o seu homem enfiava o pé no estribo e descansasse as nádegas na sela, iria lembrar que foi gentileza de sua amada.
Por sua vez, Adorindo também quis dar a sua esposa algo que ela pudesse sentir sua presença toda vez que se utilizasse do presente. Depois de quase fundir os miolos, encontrou a alternativa: ele comprou a Cleusa uma Ordenhadeira elétrica. Depois de 25 anos puxando nas tetas das vacas, é evidente que a mulher ficaria surpresa e eufórica, embora, no momento eles tivessem uma única vaca.
Veio o esperado dia quatro de fevereiro. Cleusa se antecipou. Conduziu o marido até a casa do vizinho e mandou que abrisse uma considerável caixa de papelão, que guardava um freio, um cabresto, uma sela, peitoral, barrigueiro, estribo... tudo da melhor qualidade. Adorindo permaneceu mudo e de semblante sombrio diante daquela vestimenta que sem dúvida, daria requinte a estética do cavalo. De cabeça baixa o presenteado passava a mão de leve sobre a fofura dos pelegos e concordava que tudo faria sentido se ele não tivesse vendido o cavalo para comprar a ordenhadeira. Adorindo sorriu um sorriso pálido, agradeceu sem entusiasmo, mas ainda poderia salvar o momento. Trouxe a esposa de volta e foram até o porão da casa, e com os olhos cheios de brilho apontou para a ordenhadeira e disse: -É toda sua, Cleusa. Você gostou?...
-Brilhante essa sua ideia, marido. Pena que tive que vender a vaca para comprar a vestimenta do cavalo - disse com a voz trêmula.
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