Desabo
23/02/2010 10:18
Quando era criança, um medo me provocava arrepios traumáticos: medo de temporais. Ventos fortes acompanhados de relâmpago e trovoadas, me induziam ao pânico. Se pudesse, para ver-me livre de tamanho desconforto psicológico, me escondia de baixo da saia de minha mãe.
Um relâmpago que iluminasse uma noite escura ou a ouvir o som estridente de uma trovoada, já pensava em todas as possibilidades para buscar um refúgio seguro. Se a intempérie acontecesse à noite, era quase sempre no quarto dos pais ou das irmãs que gentilmente me cediam o deminuto espaço, aos pés, no fundo da cama. Mais medroso do que eu, só bagudo, o cachorro de meu tio e Pedrinho Balduino que em meio a um temporal se escondia de baixo da cama.
Aconteceu numa noite de fevereiro de 1948. Na época, eu tinha 8 anos de idade. Estávamos em plena safra de uva. Na casa de meus pais habitavam além de eu e meus 10 irmãos, meia dúzia de empregados e meus tios e padrinhos Balduino e Carmelina Panno. Para acomodar toda essa gente, onde havia algum espaço na casa, tinha uma cama improvisada.
Lembro que após um dia de intenso calor, a noite veio abafada prometendo chuva grossa. Às nove horas apagaram-se os lampiões e todos nos recolhemos para nossos quartos, vencidos pelo cansaço do dia.
De repente, através do vidro da janela, um relâmpago, acompanhado de forte trovoada, iluminou o quarto onde dormia. Saltei da cama como que impulsionado por uma mola e procurei me refugiar na cama de meus velhos. Mas, envolvido pelo medo e pela tensão, errei de compartimento e quando percebi estava no quarto de meus padrinhos. A princípio tentei me acomodar aos pés da cama e cobrir a cabeça com as cobertas como de costume, mas como não encontrei espaço, me escondi de baixo da cama. Fechei os olhos e tapei os ouvidos para não ouvir o barulho da chuva no telhado de zinco.
Foram momentos de pavor, vividos de baixo daquela cama, provocados pelo temporal. Quando a chuva deu uma trégua, passei a conviver com o ronco e as esporádicas flatulências de Balduino. Quando estava pronto para deixar meu esconderijo, o padrinho pigarreou, revirou-se, desceu os pés da cama e ali permaneceu por alguns instantes. Minutos depois, levantou-se, ajoelhou-se e enfiou a mão de baixo da cama como quem procurava alguma coisa. A princípio sua mão grossa e áspera deslizou sobre minha testa e passou a acariciar o meu cabelo.
- Não consigo achar a alça do penico – disse o padrinho, acordando tia Carmelina.
- Levei ele para o quarto do João e da Francisca. Se estiver apertado abra a janela – sugeriu a madrinha.
- Quem esta de baixo desta cama? Tenho a impressão de ter passado a mão sobre pelos...
- Com certeza é bagudo. Noite de temporal. Até parece que não conheces o teu cachorro...
Tio Balduino ficou de pé, abriu a janela e começou a esvaziar a bexiga. Com os relâmpagos que ainda insistiam, percebi que ele usava cueca branca, tendo atrás impresso o mapa do Brasil. Quando tornou a deitar-se fez um convite a tia Carmelina para o amor.
- Não senhor. Hoje só lavei os pés...
Mas o padrinho não respeitando o apelo da tia começou uns movimentos que o colchão feito de palha de milho começou a crepitar com intensidade, confundindo-se com a chuva que voltava a cair. Sem fazer barulho, sai de mansinho daquela posição incomoda e também para não ser testemunha de um pecado mortal. Quando estava atravessando o corredor percebi que a porta do quarto das gurias estava aberta. Minha irmã mais velha Lurdes acordou e indignada gritou:
- Cachorro dentro de casa outra vez?!...
Entrei no meu quarto, deitei na cama e antes de tapar os ouvidos ouvi um estrondo que veio do quarto de Balduino e Carmelina. Agradeci a Deus por ter saído daquele esconderijo evitando uma tragédia.

Contato: remy.valduga@hotmail.com

Colunas Anteriores

A família do prefeito - Remy Valduga para o Vale - 19/05/2009 14:57

Bodas de Prata - Remy Valduga para o Vale - 15/06/2009 11:20

"O filho de Zoraia" - Remy Valduga para o Vale - 19/11/2009 09:48

Fidélio por testemunha - Remy Valduga para o Vale - 15/12/2009 09:49

Cristel - Remy Valduga para o Vale - 16/03/2010 11:11